BLOG DO NAVARRO
  

Muros

 

Rogério Navarro

 

 

Há exatamente vinte anos, eu estava prestes a entrar na adolescência. Recordo-me das muitas conversas que travava com meu irmão, então recém-graduado em

História. História que começava a mudar de forma cada vez mais acelerada naquele dia 9 de novembro de 1989.

 

Achava interessante os símbolos do socialismo, incluindo a foice e o martelo. A infância difícil, a origem proletária dos meus familiares faziam com que eu me simpatizasse em muito com o refrão da “Internacional Socialista”.

 

Mas de repente, noticias na televisão davam conta que o Muro de Berlim estava prestes a cair. O povo alemão celebrava. Uma noite inesquecível. O “fim de uma era” se anunciava quando o “muro” foi derrubado pelo povo.

 

Logo após a queda do “muro”, todas sabem as mudanças que aconteceram no leste europeu. Pouco tempo depois, entre complexos e acnes, ouvia a música “Wind of change”, com misto de esperança e nostalgia.

 

Nostalgia pelo sonho socialista, o qual, intuía, estava sendo sepultado. Esperanças de que o futuro, ainda assim, pudesse trazer maiores avanços, diminuição das desigualdades sociais, enfim, maiores chances de paz.

 

Veio a globalização e com ela tudo o que hoje conhecemos. Os avanços tecnológicos, então impensáveis para aquele garoto que depois, tendo se orgulhado de estudar em escola pública a vida toda, cursou Direito em uma faculdade pública, e dez anos depois da “queda do muro”, seria o “orador da turma”, chegaram com uma rapidez jamais imaginada.

 

Em meio a isso, a inflação no Brasil acabou na década de noventa, o neoliberalismo imperou por muitos anos e, 13 anos após o muro cair, o meu eterno candidato a presidente chegou ao poder, vencendo o medo, sem medo de ser feliz.

 

Ainda tem as torres gêmeas que caíram, a histeria antiterrorista que veio em seguida, até um negro ocupar a presidência dos E.U.A, novamente com um discurso de esperança.

 

O “muro de Berlim” caiu, mas outros muros persistem. Israel confina os palestinos a guetos, através de um muro. O “muro das desigualdades” do sistema capitalista, combalido pela maior crise (em 2008) que o atingiu desde 1929, continua firme.

 

A globalização não construiu fraternidade, e se encurtou distancias, hoje denuncia desigualdades entre os que vivem na opulência consumista e os que continuam excluídos de todas as oportunidades.

 

Finalmente, não posso dizer que hoje o mundo seja um lugar melhor para viver do que há vinte anos. Está mais quente, mais ameaçado, tanto pelo terrorismo como pelo aquecimento climático (problema pouco refletido em 1989).

 

No momento vivo na maior cidade da América do Sul. Parte dos meus sonhos foram alcançados, em meio às perdas no meio do caminho. Aproximo dos meus trinta e três anos, ainda me comovendo quando ouço a velha canção do Scorpions. O tempo é mesmo implacável, nos deixa pegadas tristes. Mas essa marcha incessante não pode destruir a esperança. E assim, mesmo cansado, ainda espero.



Escrito por Rogério Navarro de Andrade às 22h08
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